Categoria: Charles Haddon Spurgeon


C.H. Spurgeon

Retrato de C.H. Spurgeon

Em Park Street, no início de meu ministério, eu contei a história, e ela fez bem ao meu amigo [Willian Higgs, diácono do Metropolitan Tabernacle, que morreu na semana anterior a este sermão], e ajudou sua alma a descansar todos esses anos, de modo que ele se lembrava e a repetiu antes de partir. Por causa dele, deixe-me contá-la novamente: Jack era um mascate pobre, ímpio, que tinha ido de aldeia em aldeia, praguejando, bebendo, mascateando e talvez até furtando. Alguns achavam que ele era meio caduco, mas a história mostrará que sua mente era suficientemente boa. Ele ouviu uma mulher pobre cantar em algum lugar:

“Eu sou absolutamente nada, uma pobre pecadora;
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”

Ele não se esqueceu destas palavras, e, melhor ainda: ele compreendeu o seu significado e continuou cantarolando-as para si mesmo até que o bom Espírito de Deus as gravou em seu coração. Lá elas foram registradas, e Jack era um homem novo e salvo. Então ele tentou juntar-se à igreja, mas os irmãos olharam desconfiados para ele e perguntaram: “Qual é a sua experiência?” Ele disse que não tinha experiência além desta:

“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”

Os bons presbíteros decentemente perguntaram: “Você é convertido? Você já nasceu de novo?” e Jack respondeu: “Eu não sei muito sobre essas coisas, mas eu sei e estou certo de que:

‘Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.’”

Deixaram ele de lado por um tempo, para ver se ele iria crescer em seu conhecimento, mas ele nunca foi um centímetro além do seu saber inicial. Ele sabia o que aprendeu e guardou rapidamente:

“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”

Bem, eles foram obrigados a aceitá-lo na igreja; não poderiam recusar um homem com tal confissão de fé. Quando ele estava na igreja, caminhando com os irmãos, era mais feliz do que todo o resto, no que muito se maravilharam. E alguém disse-lhe: “Irmão Jack, às vezes você não tem dúvidas e medos?” “Dúvidas?”, disse ele, “O que você quer dizer? Eu nunca duvido que ’Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador’, pois tenho provas diárias disso. E por que eu duvidaria que ‘Jesus Cristo é o meu tudo em todos’? Pois ele diz que é, e eu tenho que acreditar nele.” “Ah, bem,” disse um, “às vezes eu desfruto de bons momentos e sentimentos, e me sinto muito feliz, e depois eu os perco, e me abato em meu espírito.” Jack respondeu: “Eu nunca fico abaixo do que já sou, porque já sou o grau mais baixo: ‘Absolutamente nada, um pobre pecador.’ Eu não posso ir mais baixo do que isso, posso? Mas eu também estou no topo, pois ‘Jesus Cristo é o meu tudo em todos’, e eu não posso ir mais alto do que isso, posso?”

Testaram Jack de muitas maneiras com bendita experiência, da qual você e eu temos carroças cheias, talvez vagões lotados, mas ele não pôde ser retirado de sua posição firme. Provaram a ele com suas várias realizações, depressões, ansiedades, jogos de palavras, e perguntas, mas ainda assim o mascate não se cedia. Ele tinha comprado a verdade e não a venderia, e assim ele se prendeu a:

“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”

(…) É claro que nossos novos irmãos “Perfeição”, santos reluzentes como são, não são como Jack. Eles não são “absolutamente nada” ou “pobres pecadores”, e eu temo que alguns deles devem saber que Jesus Cristo não é o seu tudo em todos. Mas se você e eu somos como ele era, “absolutamente nada” e “pobres pecadores”, podemos, a pulso firme e resoluto, nos apoderar da outra linha: “Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.” A plenitude de Cristo é destinada ao nosso vazio; a justiça de Cristo é destinada ao nosso pecado, a salvação é para os perdidos. Quando você e eu já não somos pecadores, Cristo já não é o nosso Salvador; quando você e eu não precisarmos mais dele, então não mais o possuiremos. Nossa necessidade é a nossa garantia; se ela se for, tudo se foi. Jesus não sangrou e morreu para ser desnecessário para nós: ele veio para atender uma necessidade cruel. Enquanto nós não somos nada, Cristo é o nosso tudo em todos; podemos estar certos disso, e isto é apenas o evangelho em poucas palavras.

Tradução: Vinícius Albuquerque

Fonte: Extraído do sermão nº 1700, “A Monument for the Dead and a Voice to the Living“, de Charles Haddon Spurgeon. Você também pode encontrar esta história no sermão nº 47, “Christ’s Prayer for His People“, onde Spurgeon, ainda pregando em New Park Street, teria citado esta história pela primeira vez.

C.H. Spurgeon

Retrato de C.H. Spurgeon

Ah, alma! Eu não sei quem és, contudo, se você conta com alguma justiça própria, então você é uma alma desprovida de graça. Se tu tens dado todos teus bens para alimentar aos pobres; e se tens construído muitos santuários e tem andado circulando com abnegação entre as casas da pobreza, para visitar aos filhos e filhas da aflição; e se tens jejuado três vezes na semana; se tuas orações são sempre tão largas que tua garganta enrouquece por causa de teus clamores; se tuas lágrimas são tantas que teus olhos tem ficado cegos por causa do teu pranto; se tuas leituras da Escritura são tão largas que o azeite da lâmpada é consumido em abundância; se, afirmo, teu coração tem sido tão terno para o pobre, o enfermo e o necessitado que você haveria de estar em tal estado disposto a sofrer com eles, e suportar todas suas repugnantes enfermidades, e ainda mais, somando a tudo isso, em tal ponto de entregar teu corpo ao fogo, PORÉM se confias em qualquer destas coisas, tua condenação seria tão segura como se fosses um ladrão ou um beberrão!

Fonte: Projeto SpurgeonCharles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350: “Um golpe certeiro na justiça própria

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”
Lamentações 3.21

C.H. Spurgeon

Retrato de Spurgeon

A memória freqüentemente é escrava da depressão. Mentes desesperadas trazem à lembrança todas as experiências problemáticas do passado e se demoram em todas as perspectivas melancólicas do presente. A memória, vestida de pano de saco, apresenta à mente uma taça cheia de fel e de amargor. Entretanto, não há necessidade disso. A sabedoria pode transformar facilmente a memória em um anjo de consolação. Aquela mesma recordação que nos traz tantos presságios obscuros também pode trazer consigo uma abundância de sinais esperançosos. Essa foi a experiência de Jeremias. Sua memória o trouxe a uma profunda humilhação de alma: “Minha alma, continuamente, os recorda e se abate dentro de mim” (Lamentações 3.20). Mas a mesma memória lhe restaurou a vida e o ânimo. “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”

Se exercitarmos nossa memória com mais sabedoria, poderemos, em nossas mais obscuras aflições, riscar um fósforo que acenderá imediatamente a lâmpada da consolação. Não existe qualquer necessidade de Deus criar uma nova maneira de restaurar o regozijo dos crentes. Se com oração eles jogarem fora as cinzas do passado, encontrarão luz para o presente. Se eles se voltarem ao Livro da verdade e ao trono da graça, o candelabro deles logo brilhará novamente. É nosso dever recordar a bondade do Senhor e os atos de sua graça. Abramos, portanto, o álbum de recordações que está ricamente iluminado com as memórias da misericórdia de Deus. A memória pode ser, conforme Coleridge a chamou, “a fonte do regozijo íntimo”. Quando o Consolador divino inclina-a ao seu serviço, a memória pode se tornar uma das principais fontes de consolação terrenas.

Charles Haddon Spurgeon

O que se gaba de ser perfeito, só é perfeito na tolice. Eu estou há um bom tempo pelo mundo, e nunca vi um cavalo perfeito nem um homem perfeito e nunca verei até que dois domingos venham juntos. Você não pode obter farinha de trigo de um saco de carvão nem, perfeição da natureza humana; o que procura isso faria melhor procurando açúcar no mar. O antigo ditado diz: “Onde não há vida, não há imperfeição”. Sobre homens mortos não deveríamos dizer nada a não ser o bem; mas todos os vivos têm mais ou menos os mesmos defeitos, e podemos ver isso com apenas um olho. Toda cabeça tem um pouco de miolo mole, e todo coração tem uma partezinha negra. Toda rosa tem seus espinhos, e cada dia, sua noite. Até mesmo o sol tem manchas, e as nuvens escurecem os céus. Ninguém é tão sábio nem tolo o bastante para guardar um lugar especial na Feira da Vaidade. Posso não ver o boné de bobo, contudo escuto o retinir dos sininhos. Como não há luz solar sem algumas nuvens, assim também todos os seres humanos têm uma boa mistura de maldade, uns mais, outros menos. Mesmo os pobres protetores da lei têm seus pequenos deslizes, e os cristãos das igrejas não têm natureza totalmente celestial. O melhor vinho tem resíduos. Todas as imperfeições humanas não estão escritas na testa, e é tão certo que elas não estão ou os chapéus precisariam ter abas muito largas. Contudo, tão certo como ovos são ovos, as imperfeições de algum modo se aninham em cada peito. Não há o que dizer quando os pecados de um homem ficam aparentes, pois as lebres saem do fosso justamente quando você não procura por elas. Um cavalo com as pernas fracas pode não tropeçar por um ou dois quilômetros, mas ele tem a fraqueza e é melhor o cavaleiro segurá-lo bem. A gata listrada não está bebendo leite agora, mas deixe a porta da leiteria aberta e veremos se ela não é tão ladra quanto os gatinhos. Há calor no minério aparentemente frio, espere até o que o aço dê uma pancada nele, e você verá. Todos conhecem os fatos, mas nem todos lembram de manter a pólvora longe da vela.

Se lembrássemos sempre que vivemos entre homens imperfeitos, não sentiríamos essa perturbação quando descobrimos as falhas de nossos amigos. O que está podre despedaça-se, e os potes rachados vazam. Abençoado é aquele não espera nada da carne e do sangue, pois não se desaponta. O melhor dos homens são homens em seu melhor, no entanto, até mesmo a melhor cera derrete.

O bom cavalo é o que nunca tropeça A boa esposa é a que nunca resmunga. Sem dúvida, encontramos tais cavalos e esposas apenas no paraíso dos loucos em que crescem bolinhos em árvores. Neste mundo pernicioso, a tora mais reta tem nós, e o campo de trigo mais limpo tem sua cota de ervas daninhas. O motorista mais cuidadoso, um dia, bate o carro; o cozinheiro mais talentoso derrama um pouco de caldo; e para minha tristeza sei que um lavrador muito decente, às vezes, quebra o arado e faz um sulco torto.. É tolice se afastar de um amigo leviano por causa de um ou dois deslizes, pois você pode livrar-se de um cavalo caolho e comprar um cego. Como somos todos cheios de defeitos deveríamos observar dois fatos: aprender a suportar e ser tolerantes uns com os outros. Como todos temos telhado de vidro, nenhum de nós deve atirar pedras no telhado do vizinho. Todo mundo ri quando a panela diz para a chaleira: “Como você está preta!”. As imperfeições dos outros nos mostram as nossas imperfeições, porque uma ovelha é muito parecida com a outra; e se há um cisco no olho do meu vizinho, sem dúvida há uma viga no meu. Temos de usar nossos vizinhos como espelhos para ver nossas próprias faltas neles, e corrigir em nós mesmos o que vemos neles.

Não tenho paciência com os que ficam enfiando o nariz na casa de todo mundo para descobrir imperfeições; que usam óculos excelentes para ver as falhas de seus vizinhos. Seria melhor se essas pessoas olhassem seus lares e vissem o demônio onde menos esperavam. Nós vemos o que queremos ou o que achamos que é. As imperfeições são sempre abundantes, onde há pouco amor. Uma vaca branca será toda negra se seus olhos quiserem que ela seja. Se aspiramos por muito tempo um perfume achamos que o aroma não é bom. Seria bem mais agradável, pelo menos para as outras pessoas, se os descobridores de imperfeições dirigissem seus cães para descobrir pontos positivos nos outros; valeria mais a pena e ninguém ficaria de pé com um forcado para mantê-los fora de sua fazenda. Quanto a nossas imperfeições precisaríamos de uma grande lousa para enumerá-las; mas, graças a Deus, sabemos onde levá-las e como tirar delas o melhor. Se cremos em seu Filho, Deus nos ama com todos nossos erros. Por isso, não desanimemos, mas tenhamos esperança de viver, e aprender, e prestar algum bom serviço antes de morrer. Ainda que o carro quebre, ele chega em casa com sua carga, e o cavalo velho, de joelhos quebrados, ainda faz uma parte do trabalho. Não adianta deitar no chão sem fazer nada porque não conseguimos fazer tudo como gostaríamos. Imperfeita ou não, a lavra precisa ser feita; pessoas imperfeitas devem fazê-la também ou não haverá colheita no próximo ano. João pode ser um mau lavrador, mas os anjos não farão seu trabalho para ele, assim, ele tem de começar a fazê-lo ele mesmo. Vamos, Violeta! Arre, pára! Garboso.

Fonte: http://www.charleshaddonspurgeon.com/

Tradução: Walter Andrade Campelo

Um mal está no declarado campo do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até o mais míope dificilmente deixaria de notá-lo durante os últimos anos. Ele se tem desenvolvido em um ritmo anormal, mesmo para o mal. Ele tem agido como fermento até que toda a massa levede. O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto sugerir à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com vistas a ganhá-las.

Da pregação em alta voz, como faziam os Puritanos, a Igreja gradualmente baixou o tom de seu testemunho, e então tolerou e desculpou as frivolidades da época. Em seguida ela as tolerou dentro de suas fronteiras. Agora as adotou sob o argumento de atingir as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento para as pessoas não está dito em parte nenhuma das Escrituras como sendo uma função da Igreja. Se este é um trabalho Cristão, porque Cristo não falou dele? “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15). Isto está suficientemente claro. Assim teria sido se Ele tivesse adicionado “e proporcionem divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho.” Nenhuma destas palavras, contudo, são encontradas. Não parecem ter-lhe ocorrido.

Então novamente, “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores… para a obra do ministério” (Efésios 4:11-12). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia no que diz respeito a eles. Foram os profetas perseguidos porque divertiram o povo ou porque o rejeitaram? Em concerto musical não há lista de mártires.

Além disto, prover divertimento está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual foi a atitude da Igreja quanto ao mundo? “Vós sois o sal” (Mateus 5:13), não o doce açucarado – algo que o mundo irá cuspir e não engolir. Curta e severa foi a expressão: “deixa os mortos sepultar os seus mortos.” (Mateus 8:22) Ele foi de uma tremenda seriedade.

Se Cristo introduzisse mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão, ele teria sido mais popular quando O abandonaram por causa da natureza inquiridora de Seus ensinos. Eu não O ouvi dizer: “Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga-lhes que nós teremos um estilo diferente de culto amanhã, um pouco mais curto e atraente, com pouca pregação. Nós teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que certamente se agradarão. Seja rápido Pedro, nós devemos ganhar estas pessoas de qualquer forma.” Jesus se compadeceu dos pecadores, suspirou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.

Em vão serão examinadas as Epístolas para se encontrar qualquer traço deste evangelho de entretenimento! A mensagem delas é: “Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!” É patente a ausência de qualquer coisa que se aproxime de uma brincadeira. Eles tinham ilimitada confiança no evangelho e não empregavam outra arma.

Após Pedro e João terem sido presos por pregar o evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não oraram: “Senhor conceda aos teus servos que através de um uso inteligente e perspicaz de inocente recreação possamos mostrar a estas pessoas quão felizes nós somos.” Se não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo para arranjar entretenimentos. Dispersos pela perseguição, foram por todos lugares pregando o evangelho. Eles colocaram o mundo de cabeça para baixo (Atos 17:6). Esta é a única diferença! Senhor, limpe a Igreja de toda podridão e refugo que o diabo lhe tem imposto, e traga-nos de volta aos métodos apostólicos.

Finalmente, a missão de entretenimento falha em realizar os fins desejados. Ela produz destruição entre os novos convertidos. Permita que os negligentes e escarnecedores, que agradecem a Deus pela Igreja os terem encontrado no meio do caminho, falem e testifiquem. Permita que os oprimidos que encontraram paz através de um concerto musical não silenciem! Permita que o bêbado para quem o entretenimento dramático foi um elo no processo de conversão, se levante! Ninguém irá responder. A missão de entretenimento não produz convertidos. A necessidade imediata para o ministério dos dias de hoje é crer na sabedoria combinada à verdadeira espiritualidade, uma brotando da outra como os frutos da raiz. A necessidade é de doutrina bíblica, de tal forma entendida e sentida, que coloque os homens em fogo.

Pr. Charles Haddon Spurgeon

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