Em Park Street, no início de meu ministério, eu contei a história, e ela fez bem ao meu amigo [Willian Higgs, diácono do Metropolitan Tabernacle, que morreu na semana anterior a este sermão], e ajudou sua alma a descansar todos esses anos, de modo que ele se lembrava e a repetiu antes de partir. Por causa dele, deixe-me contá-la novamente: Jack era um mascate pobre, ímpio, que tinha ido de aldeia em aldeia, praguejando, bebendo, mascateando e talvez até furtando. Alguns achavam que ele era meio caduco, mas a história mostrará que sua mente era suficientemente boa. Ele ouviu uma mulher pobre cantar em algum lugar:
“Eu sou absolutamente nada, uma pobre pecadora;
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”
Ele não se esqueceu destas palavras, e, melhor ainda: ele compreendeu o seu significado e continuou cantarolando-as para si mesmo até que o bom Espírito de Deus as gravou em seu coração. Lá elas foram registradas, e Jack era um homem novo e salvo. Então ele tentou juntar-se à igreja, mas os irmãos olharam desconfiados para ele e perguntaram: “Qual é a sua experiência?” Ele disse que não tinha experiência além desta:
“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”
Os bons presbíteros decentemente perguntaram: “Você é convertido? Você já nasceu de novo?” e Jack respondeu: “Eu não sei muito sobre essas coisas, mas eu sei e estou certo de que:
‘Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.’”
Deixaram ele de lado por um tempo, para ver se ele iria crescer em seu conhecimento, mas ele nunca foi um centímetro além do seu saber inicial. Ele sabia o que aprendeu e guardou rapidamente:
“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”
Bem, eles foram obrigados a aceitá-lo na igreja; não poderiam recusar um homem com tal confissão de fé. Quando ele estava na igreja, caminhando com os irmãos, era mais feliz do que todo o resto, no que muito se maravilharam. E alguém disse-lhe: “Irmão Jack, às vezes você não tem dúvidas e medos?” “Dúvidas?”, disse ele, “O que você quer dizer? Eu nunca duvido que ’Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador’, pois tenho provas diárias disso. E por que eu duvidaria que ‘Jesus Cristo é o meu tudo em todos’? Pois ele diz que é, e eu tenho que acreditar nele.” “Ah, bem,” disse um, “às vezes eu desfruto de bons momentos e sentimentos, e me sinto muito feliz, e depois eu os perco, e me abato em meu espírito.” Jack respondeu: “Eu nunca fico abaixo do que já sou, porque já sou o grau mais baixo: ‘Absolutamente nada, um pobre pecador.’ Eu não posso ir mais baixo do que isso, posso? Mas eu também estou no topo, pois ‘Jesus Cristo é o meu tudo em todos’, e eu não posso ir mais alto do que isso, posso?”
Testaram Jack de muitas maneiras com bendita experiência, da qual você e eu temos carroças cheias, talvez vagões lotados, mas ele não pôde ser retirado de sua posição firme. Provaram a ele com suas várias realizações, depressões, ansiedades, jogos de palavras, e perguntas, mas ainda assim o mascate não se cedia. Ele tinha comprado a verdade e não a venderia, e assim ele se prendeu a:
“Eu sou absolutamente nada, um pobre pecador,
Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.”
(…) É claro que nossos novos irmãos “Perfeição”, santos reluzentes como são, não são como Jack. Eles não são “absolutamente nada” ou “pobres pecadores”, e eu temo que alguns deles devem saber que Jesus Cristo não é o seu tudo em todos. Mas se você e eu somos como ele era, “absolutamente nada” e “pobres pecadores”, podemos, a pulso firme e resoluto, nos apoderar da outra linha: “Mas Jesus Cristo é o meu tudo em todos.” A plenitude de Cristo é destinada ao nosso vazio; a justiça de Cristo é destinada ao nosso pecado, a salvação é para os perdidos. Quando você e eu já não somos pecadores, Cristo já não é o nosso Salvador; quando você e eu não precisarmos mais dele, então não mais o possuiremos. Nossa necessidade é a nossa garantia; se ela se for, tudo se foi. Jesus não sangrou e morreu para ser desnecessário para nós: ele veio para atender uma necessidade cruel. Enquanto nós não somos nada, Cristo é o nosso tudo em todos; podemos estar certos disso, e isto é apenas o evangelho em poucas palavras.
Tradução: Vinícius Albuquerque
Fonte: Extraído do sermão nº 1700, “A Monument for the Dead and a Voice to the Living“, de Charles Haddon Spurgeon. Você também pode encontrar esta história no sermão nº 47, “Christ’s Prayer for His People“, onde Spurgeon, ainda pregando em New Park Street, teria citado esta história pela primeira vez.





